Como nascem os problemas

* Essa é a uma continuação desse texto.
** Esse texto nunca existiria se não fosse por essa música.

 

“Eu acabei de sair de um relacionamento, não estou pronta agora. Foi mal.”

Essa era a desculpa que eu usava todas as vezes que um cara me chamava para sair com ele, só com ele. Era uma desculpa clássica. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento… há mais ou menos dois anos atrás. Mas a parte de não estar pronta era verdade. Eu não estava e talvez não estaria nem daqui cinco anos. Até uns meses atrás eu estava feliz de ficar com quem quisesse em alguma festa, com algum amigo de outro amigo e, principalmente, quando estava bêbada. Estar bêbada era sempre a parte importante, porque assim podia suprir minhas necessidades físicas sem ter que realmente me importar com as conversas fiadas. Só que tudo isso me fazia sentir amarga no dia seguinte quando acordava com ressaca – física e moral -, então eu escolhi ficar quieta e ser feliz assim. Os únicos beijos que eu dava era no Macbeth nos ensaios e nas apresentações da peça. Isso era trabalho, então tudo bem.

Não que ele soubesse. Ele realmente não sabia, mas ainda não tinha feito o tipo de convite que eu precisasse dizer “Eu acabei de sair de um relacionamento, não estou pronta agora. Foi mal”. Não que fosse servir. Ele me conhecia. Ele sabia que não tinha relacionamento algum.

 

 

Ela definitivamente não era a pessoa mais fácil de entender. Mulheres normalmente não são nada fáceis e, depois de vinte e seis anos convivendo com um bilhão delas, eu já tinha largado a toalha. Não queria entender mais ninguém. Mas ela era, além de difícil de entender, também um grande problema: se não a entendesse, não conseguiria entrar na sua cabeça.

No começo eu mantive os nossos encontros apenas na ficção, sempre me esforçando em dar um exemplar do que poderia acontecer, mas ela era inabalável. Nunca comentava nada sobre isso, apesar de sermos amigos. Sempre mantinha tudo isso no profissional, mas eu conseguia ver um pouco através de toda essa muralha de pedra. Eram coisas pequenas, mas quando a apertava contra mim, desnecessariamente, durante os ensaios, ela fazia exatamente o mesmo. Eu sempre me afastava primeiro e ela sempre parecia um pouco desnorteada com isso. Contrariada. Eram coisas pequenas, mas se eu não entendia a cabeça das mulheres, eu com certeza entendia muito bem sobre o que o corpo delas falava.

Tirando isso, tudo estava perfeito. Nós éramos muito amigos, muito mais do que o resto do elenco, apesar de sermos todos bem próximos e sempre nos reunirmos. Ela entendia meu senso de humor, eu entendia seus problemas. Havia coisas que ela claramente não contava para mais ninguém da forma como me contava, e isso me fazia dividir coisas que eu não queria dividir com ninguém. Era estranho. Um sentimento muito estranho, mas muito bom. Eu já tinha gostado de outras garotas e tido alguns relacionamentos, mas nunca tinha tido esse tipo de ligação com ninguém. No começo, estava tentando seduzi-la porque parecia um desafio. Agora, eu não conseguia pensar em nenhuma outra garota a não ser ela.

 

Eu já tive outros relacionamentos. Eu já tive muitos problemas com eles. As coisas são assim: você começa porque conheceu alguém incrível, mas no final, alguém sempre sai machucado. Ou você sai fodido, sem orgulho e com o coração despedaçado, ou então você sai mal, porque está machucando alguém que você se importa. Por que é que eu iria querer passar por isso de novo?

Além do mais, ele era o tipo de problema que eu definitivamente não queria ter. Ele era espontâneo demais e livre demais. Gostava de fazer suas coisas no seu tempo e conforme sua vontade. Era sempre o rei das festas, o cara mais engraçado e mais agradável, sem ser aquele tipo de cara que gosta de toda a atenção, mas que emana tanta coisa boa que é natural que as pessoas queiram estar por perto dele. E isso inclui garotas. Algumas bem bonitas. Outras muito bonitas.

Ele também era um pouco mimado e teimoso. Um pouco intransigente. Às vezes passávamos horas discutindo sobre um mesmo assunto até fazê-lo admitir que estava errado, porque eu só entrava nessa quando sabia que estava 100% certa.

Nada disso era um problema de verdade… até que eu resolvesse me envolver. E eu não queria. Eu não queria deixar aflorar nada daquilo que eu estava sentindo por ele, porque eu sabia que ele se tornaria um problemão. E sabe, a gente escolhe o tipo de problema que quer ter. Sempre tem uma hora antes de se envolver que você pode pensar “Hmmm, sabe de uma coisa, eu não quero esse problema pra mim” e então você cai fora. Mas não precisa ser de uma maneira drástica. Você pode só ficar por perto e manter as coisas saudáveis, como eu estava tentando manter.

 

Estava completamente bêbado em um dos bares perto da estação Bedford com todo o pessoal do elenco. Era um daqueles bares karaokê e todo mundo fazia questão de escolher músicas incrivelmente péssimas e eu, obviamente, não era uma exceção à regra. Só que ela, ah, ela com certeza era. Ela escolheu a música legal. E ela cantou. E ela cantou muito bem, exceto por alguns erros na letra que me faziam engasgar, porque eu sabia cantar tudo aquilo direito. Quando ela desceu do palco, eu disse alto perto do seu ouvido, para que me escutasse por cima da música alta “Eu amo você quando canta” e ela perguntou  “o quê?” e eu disse “Eu amo quando você canta”. Eu não me importei nem um pouco de ter dito a primeira frase. Eu sabia o efeito que tinha causado.

Ou não. Aparentemente não, porque ela agiu como se realmente não a tivesse ouvido. Esse era só mais um episódio do tipo de coisa que eu fazia e não recebia nenhum sinal dela. Nada de “pode parar”, mas também nada de “olha, pode vir”. Ela estava me deixando maluco, já passava quatro meses dessa situação e eu não aguentava mais. Eu me sentia um cara de dezesseis anos que nunca tinha se apaixonado na vida, o quão angustiante era esse porra de não saber. Mas eu te juro que ela valia cada minuto angustiante desse.

Estávamos sentados à mesa enquanto boa parte das pessoas estavam curtindo a vibe de porre dançando ou cantando no palco. alguns caras estavam putos comigo porque eu estava dando toda a atenção para ela e recebendo o mesmo tanto de volta. Mas eu também estava bastante bêbado e de saco cheio. Enquanto conversávamos sobre qualquer coisa eu fiz a grande cagada da noite que era começar uma nova conversa com “Olha só, eu sei que você talvez nem esteja afim, mas eu já não consigo fazer as coisas que fazia e eu quero saber…” e eu falei todo o texto que tinha escrito rapidamente na cabeça nos últimos segundos.

 

 

Quando ele começou com aquele discurso de “olha eu não sei o que você vai fazer mas eu não consigo mais passar o rodo porque tô afinzão de você” eu só consegui fazer uma careta e mandar ele parar. Ele sentiu que tinha feito merda ali. Mas eu também já sabia que não tinha jeito, quando ele me disse que me amava quando eu cantava. É óbvio que foi proposital – eu já saquei o jogo dele há um tempão, e eu realmente estava me esforçando para ficar na minha. Só que foi naquela noite, da maneira mais idiota, que eu percebi que já tinha me enfiado nessa até a cabeça. Se estivesse no mar, eu já teria me afogado há uns dois meses.

Eu não queria tomar nenhuma atitude, não sei bem por quê, mas eu precisei dizer, antes que ele se levantasse ou então que o clima estranho entre nós se prolongasse: “Relaxa. A gente tá no mesmo barco”. O que me desculpe se parece péssimo – é que eu também estava bêbada.

Foi o suficiente. Ele entendeu. Ele me beijou, e foi totalmente diferente. Não éramos mais Macbeth e Lady Macbeth, éramos ele e eu, e apesar de eu ainda não saber se ele era o tipo de problema que eu queria me enfiar, era definitivamente um problema que já tinha virado meu.

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2 comments

  1. Bessie

    Sua linda <3 adorei! Senti algumas dores no texto, mas não deixa de ser bonito.

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    1. tchoimoi

      hahahhah não sintaaaa por favor <3 que bom que você gostou, sua linda!

      Responder

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