No one knows what it means, but it’s provocative

Nem acreditava que estava fazendo aquilo. Há muito tempo que não ousava ir pra tão longe, por conta própria, confiando apenas em si mesmo para não fazer qualquer cagada. Estava suando de tanto nervoso, e por isso fechou as janelas e ligou o ar condicionado, para tentar fingir para si mesmo que estava sob controle.

“Você vem mesmo?” a voz do outro lado perguntou, quando ele atendeu a chamada.
“Sim, eu tô no caminho” disse, tentando não passar toda sua tensão no tom de voz.
“Você tá bem?” é, não deu muito certo.
“Estou sim!”
“Fica tranquilo. Se não der pra chegar na hora não tem problema. Só fique tranquilo”

Respirou fundo e passou tudo pela sua cabeça novamente. Ele não estava tranquilo. Fazia anos que não estava tranquilo de dirigir numa estrada, especialmente à noite. Devia ter se planejado melhor e ter saído antes, ou comprado aquela passagem de avião que viu na noite anterior, mas a cagada já estava feita. Parecia que o mundo tinha conspirado para que tivesse que viver aquilo novamente, da mesma forma que da outra vez, e acabasse com aquele medo de uma vez por todas.

Um carro em velocidade máxima o ultrapassou e seu coração disparou ao ver aquelas luzes passarem tão rápido por ele.

“Eu vou conseguir.” disse antes de se despedirem e encerrarem a ligação.

Há alguns anos tinha passado por um acidente onde quase saiu dali sem vida. Seus dois melhores amigos da época não tiveram tanta sorte. Um deles ainda foi levado para o hospital em estado crítico, mas quando chegou, não tinha aguentado. Por conta disso, passou tanto tempo sem colocar a mão no volante. Há poucos anos resolveu comprar um carro e voltar a usá-lo dentro da cidade. Nunca pegava estrada – ia sempre de avião, trem ou ônibus. Mas nunca mais dirigiu para outra cidade.

Até aquela noite.

Era importante. Não se viam à meses, desde que ela se mudou a trabalho. Tinham passado por momentos estranhos em que nem se sabia se conseguiriam voltar às boas. As duas últimas semanas é que pareciam melhores. Ela conseguiu perdoá-lo por seu erro. Ele estava grato. Por isso nem ligava de dirigir às onze da noite no último dia do ano. Precisava chegar à tempo, e dividir a champanhe que tinha comprado e balançava no banco do lado conforme o movimento do carro.

“Eu não vou conseguir chegar a tempo.”
“Tudo bem, eu disse pra você. Pára em algum lugar, descansa e amanhã você vem.”
“Não é isso.” ele buzinou para um grupo de pessoas que apareciam do nada no pequeno espaço que ele conseguiu para passar. “Eu tô há duas quadras, mas tá tendo uma festa de rua. Eu não consigo andar.”
“Caralho, é mesmo. Eu esqueci disso.”
“Calma. Eu vou dar um jeito.”

Faltavam dez minutos e as pessoas só se enfiavam mais no meio da rua. Estavam todos prontos para abrir suas garrafas e brindar o ano novo que chegava, enquanto ele estava dentro do carro, suando de nervoso enquanto Kanye West cantava com Jay-Z o famoso Niggas in Paris. Que apropriado.

Dez! Nove! Oito!

Talvez se jogar um pouco o carro para o lado…

Sete! Seis! Cinco!

Buzinou algumas vezes. Racionalmente sabia que não dava mais tempo, mas já que estava ali, tentaria até o ultimo instante.

Quatro! Três! Dois!

A porta do carro se abriu e ele tomou um susto. De repente, ela sentava no banco ao lado e pegava a garrafa no banco, estourando de uma vez sem nem pensar duas vezes. Antes de beber, ela o puxou para perto.

Um! Feliz Ano Novo!

Eles se beijaram por alguns instantes enquanto as pessoas gritavam do lado de fora celebrando e os fogos gritavam no céu.

“Perfeito” ela disse em seu ouvido antes de tomar um gole da champanhe e entregar em suas mãos. Nos dois primeiros segundos ele não tinha entendido, mas igual falava a música naquele instante: no one knows what it means, but it’s provocative.

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